quinta-feira, 27 de novembro de 2008

e ontem as cores mudaram... (ou Sobre o caminho do computador à cruz)

As preocupações eram provas, cálculos, viagens e cervejas.
Olhos se faziam disso também.
Talvez as mãos buscassem o céu, talvez o peito buscasse ar, mas em terra de cego quem tem olho é rei.
Os meus estavam todos automatizados. Conectados aos fios do nada a lugar nenhum.
Levantei sem levantar. Andei sem andar. O hábito me levou brincando de fechar meus olhos.
Foi quando olhei para o céu.
Laranja. Era cor de laranja o algodão do céu. "Onde já se viu céu laranja, menino? Pode fazer de novo!", diria a professora do jardim.
Jardim da infância.
Pátio da cruz.
Acho que só lá o céu pode ser da cor do seu dia. E ninguém pode dizer que não.
Os olhos não acreditaram, o peito suspirou, e a boca se alargou timidamente. Ninguém poderia ver.
A cruz viu. Mas continuou ali, de braços abertos. Enquanto só ela me observava, voltei-me para baixo. Sonhos, terapias e fenomenologias. Interessante, mas volto ao céu.
Lilás! LILÁS!
Podia chover flores!!
"Já não te disse que céu é azul?"
É, ele acabou no cinza.
E choveu.

domingo, 23 de novembro de 2008

e amanhã tudo muda...

...como sempre

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Metalinguagem

Outro dia abri uma caixa, daquelas que já viraram paisagem, pra lembrar o que tinha dentro.
Podia ser o que fosse, eu iria acreditar que era aquilo que sempre esteve ali.
Descobri algumas lembranças que nunca saíram dos cantos da memória, só não sabia aonde as tinha encaixotado.
Comecei a folhear uns diários antigos. Aqueles dos "Oge eu brinquei de boneca".
Aí eu vim pra cá escrever.
Hoje (com H) eu parei pra pensar. Não se fazem mais diários como antigamente.
Ou, ok, eu não faço mais diários como antigamente.
Hoje meu diário é um blog. "Meu querido diário só meu que ninguém mais pode ver" está na Internet. As pessoas comentam sobre ele.
Perderam-se os dias que não se preocupam com o H.
Perderam-se os dias que fluem inteiros em uma frase, sem vírgulas.
As palavras não mais são leves, não correm mais no quintal.
Hoje elas se mostram, se exibem no compasso mais bem construído.
Ou melhor construído.
O segredo, antes, se escondia no cadeado. Exigia um cuidado.
Hoje, ele se esconde na mente. E empresta seu nome pra algumas metáforas mal resolvidas.
A inocência teve que crescer e virar figura de linguagem.
Hoje, o bom é o público. Melhor é o privado público.
Big brother era pra ser aterrorizante!
Mas janeiro começa o 9.
Dizem que quem escreve escreve pra alguém ler.
Por enquanto só quem leu os meus diarios sem acentos fui eu. E eles ainda são os que mais sabem de mim.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

enquanto o carnaval não chega

a gente bebe sem motivo
a gente dança outro samba
a gente pula
no precipício
sem motivo pra cair
sem desculpa para dar
a gente se pinta de espera
se colore nos detalhes
a gente disfarça

enquanto o carnaval não chega
a gente pede um dinheiro aí
poupa outro acolá
pra quando o carnaval chegar

a gente compra o natal
passa o branco do reveillon
faz churrascos e festinhas
pra dar motivo pra beber
e esperar

a gente dá outros nomes
amor de praia
de verão
de balada

a gente se gasta controladamente
a gente se mente conscientemente
pra quando o carnaval chegar

temporário

É que quando vem alguma coisa a gente tem que escrever.
Porque sair de dentro da gente é fácil.
A gente se engana ridicularmente (se é que essa palavra existe).
Mas sair do papel não dá.
Enganar os olhos de leitura não dá.
Os olhos de lágrimas, os de dentro, os cansados, é fácil.
Os que figem que não é com eles são os mais astutos.
E a gente não conta com a astúcia deles.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

BrIsa

Ninguém notava que ele estava ali. Mas ele estava. Um buraco qualquer, quase um ralo, pra quem passa e não vê.
Pra quem já tem um pedaço seu lá dentro, era janela da alma. O caminho mais secreto pro lugar mais profundo. Pra conhecer os meninos do centro da terra.
Eles são discretos, não fazem muito barulho. Mas pra quem observa bem, deixam alguns rastros. Aparecem algumas noites disfarçados de pedra que parece peixe e alguns dias de grama pinicando a pele. Como que num sopro, aparecem, fazem o convite, e somem.
Até que você não resiste e vai buscar seu bocado que já caiu pro dentro. Decide sair do fora, e visitar o centro. Olha no fundo dos olhos do buraco, e comeca a entrar lentamente. Cabeça, pescoço... Começa a dar um medo de não querer mais voltar.
A gente acaba, quase sempre, ficando de fora porque as pessoas do topo colocam minhoca na nossa cabeça. Mira que contradição! Todos aqueles pequenos furinhos mentem. Não nos levam pro centro da terra.
E aí quando você vai botar o peito vem uma pulguinha cutucar a orelha. Ela não diz nada, só cutuca. Os meninos, lá do fundo, chamam, gritam, berram surda e loucamente. E você pára.
É um ralo.
Aí a gente volta e finge que ainda acredita que a borda é melhor que o centro.
Os meninos, às vezes, choram baixinho, escondidos, atrás de uma brisa de um mar qualquer. Ás vezes vão brincar com o pote de ouro e tentam se aventurar pela superfície. Mas falam que dá medo, e logo voltam.
Um dia eu sei que eu vou. As minhocas vão furar outro lugar e eu mergulho na terra. Talvez eu volte e te traga um convite num botão, ou numa borboleta laranja e amarela. Talvez eu descubra que o centro é só mais uma camada, e que é a borda da camada de dentro.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Entre

As coisas que estão fora de nós
Não são fora de nós
São entre nós e elas
Entre nós e o tempo
E entre nós, a linha
Entre corpos sãos, mentem
São entrelinhas
Mentes

Tu mentes ao olhar para fora
e dizer que não vês o fora
Tu não vês o entre

15.08.08

“E a vida ganha um sentido”
“Ou vários”
(frases ditas na aula de teatro, ontem)

A vida não tem sentidos,
ela os é.

17.08.07

Tantas ideias, tantos pensamentos borbulhando, transbordando, sufocando. Enlouquecendo. É fase, é época, é normal. É tudo o que não é. E o que é agora, já não é mais. En-lou-que-cendo!
Ouvi há poucos dias que o único real que existe é o presente. É nossa única certeza. O resto é imaginação. O passado é lembrança; o futuro, esperança. Mas são ambos ilusórios. E se o presente é a nossa única certeza, pra quê pensar em outro tempo, em outro lugar, em outra situação? Há situações que somos levados para outras dimensões, mas essas, então, tornam-se o presente.
E de repente – numa epifania ou simplesmente por agora, escrevendo, eu reparar melhor nesta palavra – percebo que não é à toa que dizemos PRESENTE. É um presente: uma certeza. Pra você, dentre tantas dúvidas, questões, imagens e figuras, dou uma única certeza, de presente. De repente. E ai já não é mais.
Mas há quem viva não enxergando o presente como um presente – desabafo! –, mas como o momento de pré-sentir. Como se o sentimento – a emoção, a felicidade – estivessem sempre no futuro, e o presente só existisse para pré-sentimentos. E ai eu me pergunto, quando é o futuro? Amanhã? E amanhã, quando será o futuro? Depois de amanhã?
O futuro nunca é, o passado sempre foi. Mas é o presente o que temos. Sempre, somente, ingenuamente, brilhantemente, é só sobre o presente que podemos nos debruçar.

SARACURA

Nua
Tua
Rua
Crua
Cura
Sara
Logo


18.05.2007

2006

Tantas pessoas, tantas vidas, uma escola. Vários sorrisos, várias brigas, vários amores e discussões. Tantos momentos. Uma historia. Aquela saudade.
São anos vividos, estudados, batalhados. Alguns mais, outros menos. Mas, como dizem, não importa a quantidade, importante mesmo é a intensidade. E foram anos intensos. Como não poderiam deixar de ser. Crianças, adolescentes, aprendendo a conviver, convivendo com adultos que querem ensinar e o que mais fazem é aprender.
E quando estamos no começo ou no meio de um caminho não damos tanto valor a ele. Às vezes passamos reto por pessoas que poderiam mudar as nossas vidas. Às vezes criamos atalhos para chegarmos mais rápido ao final. E quando tudo acaba o que mais queremos é voltar e percorrer aquele caminho todo de novo. Mas agora andando mais devagar. Agora observando cada folha, cada pedra no caminho.
Mas apesar da vontade de voltar ser grande, ela não faz o impossível. Acabamos ficando apenas com as memórias. Que não são poucas. São muitas, boas e ruins. (Pois quem fala que só guarda as lembranças boas na mente se engana*. Por mais que queiramos esquecê-las, elas ficam. Mas devemos cuidar para que não sejam maiores que as boas).
Sim, os amigos de verdade também ficam. Fazem parte das lembranças, mas também do presente. Mas quem se importa apenas com os amigos? Não será deles que sentiremos saudades, pois quando chorarmos serão eles que estarão ali do nosso lado. Mas sentiremos saudades dos colegas, dos amigos dos amigos. Da namorada do amigo e da amiga dela. Sentiremos saudade do colega discutindo com a professora, da menina chorando no banheiro, da cola na prova daquele menino que você odeia! Saudade daquele professor, daquela cantina, daquela quadra. Daquele lugar ao sol que todo mundo buscava. Saudade das brincadeiras, das musicas, daquelas risadas.
Vários momentos, várias vidas. Tantas discussões, tantos amores, tantas brigas e sorrisos. Uma saudade. Aquela escola.

2006

E quando dizem que a vida sempre nos prega uma peça ainda tem gente que duvida. É porque nunca parou pra perceber a peça pregada. Ou nunca lhe deu valor.
E vem sempre de surpresa. Sempre naquele momento em que você acha que tudo está certo – ou tudo está errado. Aí vem o prego da vida bater na nossa cara de pau.
Que cara de pau a minha. Já estava começando a achar o quanto me conhecia, o quanto estava bem comigo mesma, o quanto eu tinha crescido. Hum! Iludida.
Sim, eu cresci. Sim, me conheço bem. Mas eu, sempre defensora da visão para os dois lados, do “não extremismo” das coisas, fui cair neste exagero! “Já conheço de tudo!”...
De nada! (obrigada!). Não conheço é nada.
E vou caindo nos extremismos novamente.