segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Carta ao Pai

Às vezes a vida me faz acreditar que ela existe sem mim. Que ela acontece e eu vivo. Que ela me independe. De vez em quando grita independência ou morte. E eu, mãe cuidadosa que sou, morro.
Sempre me disseram que nessa fase fica assim mesmo. É que é duro aceitar.
Outro dia ela pegou sua bolsa e me disse que ia dar uma volta. Eu deixei. Pedi pra que não demorasse. Ou que pelo menos me ligasse se fosse dormir fora.
E ela ainda não voltou. Me ligou, outro dia. Falou que tinha saído sem saber pra onde ir. Só queria tomar um pouco de ar. Até que, num bar, encontrou a sua. Passaram a noite juntas, disse que foi bom.
Só que você parece ter levado um tapa na cara e descontou nos outros. Ligou e mandou sua vida voltar. Sabia que ela tava bem, mas não era aquilo que queria que ela fizesse. Vida boa não passa a noite na rua sem avisar. Você, todo bravo, obrigou sua vida a tomar jeito, e a deixar a minha dormindo, na cama, ainda nua.
Ela não quer voltar. Não sabe o que fazer. Diz que ainda tem medo de me encarar. Eu também tenho. Sei que tenho culpa por segurá-la demais e, de repente, agora, deixá-la sair por aí, sozinha. Haveria de se machucar.
Não sei, agora, o que vai ser da minha vida sem a tua. Ela disse que, por enquanto, se não dá pra ficarem juntas ela prefere ficar sem mim também.
Dói. É difícil para uma mãe ouvir isso.
Mas eu entendo.
Só te escrevo pra te deixar a par da situação. Pra te assumir que, se você consegue controlar assim sua vida, eu não consigo. Mas prefiro uma vida livre a uma acorrentada por planejamentos.
Se um dia ela bater em sua porta, por favor, deixe-a entrar. Que seja pra elas resolverem as coisas e não mais se verem. E não estranhe também se um dia elas fugirem juntas.
Fica apertado o coração de uma mãe numa situação dessas. Você deve imaginar.
Mas se continuar decidido, se continuar preferindo assim, nos avise. Talvez se acelerem as coisas.
E se minha vida não quiser voltar, deixo-a a você. Por mais que não queira. Ela senta do lado de fora e espera.
Enquanto isso, engravido.

4 comentários:

Li disse...

Daqui a alguns dias e deleto esse texto...

Rebecca Loise disse...

do título kafkaniano, só restou a metamorfose. saiba que é de um eufemismo bonito a troca da falta do chão para vida que se resolve sem corpo maciço. não esconde a carta, Li, pois tem sentido nisso tudo.

adoreizão! beijocona,

L.G disse...

PERFEITO!

M...............a...............h l u c o. disse...

num deleta não...please... e tã lindo... Nossa fiquei extasiado com ele! Demorou 2 minutos pra apertar o "faça um comentário" porque ainda estava assimilando tudo, cada entrelinahs, antes de escrever parabenizando-te. Você é foda. eu admito. Bjo e tô com saudades já.