domingo, 21 de dezembro de 2008

Esse é o título

Pra ficar mais fácil entender, separaram homem e animal.
Separaram trabalho e vida; letra e melodia.
Separaram amor, sexo e filho.
Separaram cor e textura, cabeça e coração, futebol e arte.
Aliás, a arte separaram completamente. Conseguiram separar teatro dança música pintura e poraívai. Separaram a arte e a religião.Separaram também a arte e a vida.
Corpo, alma; antes, agora, depois; infância, adolescência, maturidade, melhor idade. Tudo agora tem no mínimo uma vírgula no meio. Isso quando não tem um ponto junto com ela.
Fica mais fácil de ensinar. Separando lucros e custos. Primeiro e terceiro mundos.
Separaram o certo e o errado, o conhecimento e o povo.
Política e poesia.
Separaram a voz e o que é dito, o silêncio e a dúvida, a lágrima e a menina dos olhos.
Separaram bruxas e fadas, inverno e primavera.
Separaram sol e chuva. Pra ficar mais didático.
E o arco-íris não existe mais.
Pelo menos não sem um hífen no meio.
Porque as vogais também devem ser separadas.
E separaram.




Isso há uns 300 anos.










e esse é o texto.

2 comentários:

D. Schuberstein disse...

eu ñ sei, às vezes deve parecer q estou puxando seu "saco". mas é incrível, os seus textos me comovem de uma forma tal q eu preciso dizer alguma coisa.
mais uma, das tantas e tantas, vez: 'parabez'!

BAR DO BARDO disse...

Leio e gosto bastante do poeta Manoel de Barros. Você apresenta um veio parecido com o dele nesse texto - embora (você/texto)permaneça com sua originalidade intocável. A idéia é a de que a visão humana - com exceção da ótica ingênua das crianças e dos seres primitivos, da ótica intoxicada dos bêbados e da ótica desvairada dos loucos - corrompe o que é natural.
Sinto que há algo de flor nascendo, sou capaz de sorver um perfume tênue...
Até a próxima, Li.
Pimenta