quinta-feira, 13 de novembro de 2008

BrIsa

Ninguém notava que ele estava ali. Mas ele estava. Um buraco qualquer, quase um ralo, pra quem passa e não vê.
Pra quem já tem um pedaço seu lá dentro, era janela da alma. O caminho mais secreto pro lugar mais profundo. Pra conhecer os meninos do centro da terra.
Eles são discretos, não fazem muito barulho. Mas pra quem observa bem, deixam alguns rastros. Aparecem algumas noites disfarçados de pedra que parece peixe e alguns dias de grama pinicando a pele. Como que num sopro, aparecem, fazem o convite, e somem.
Até que você não resiste e vai buscar seu bocado que já caiu pro dentro. Decide sair do fora, e visitar o centro. Olha no fundo dos olhos do buraco, e comeca a entrar lentamente. Cabeça, pescoço... Começa a dar um medo de não querer mais voltar.
A gente acaba, quase sempre, ficando de fora porque as pessoas do topo colocam minhoca na nossa cabeça. Mira que contradição! Todos aqueles pequenos furinhos mentem. Não nos levam pro centro da terra.
E aí quando você vai botar o peito vem uma pulguinha cutucar a orelha. Ela não diz nada, só cutuca. Os meninos, lá do fundo, chamam, gritam, berram surda e loucamente. E você pára.
É um ralo.
Aí a gente volta e finge que ainda acredita que a borda é melhor que o centro.
Os meninos, às vezes, choram baixinho, escondidos, atrás de uma brisa de um mar qualquer. Ás vezes vão brincar com o pote de ouro e tentam se aventurar pela superfície. Mas falam que dá medo, e logo voltam.
Um dia eu sei que eu vou. As minhocas vão furar outro lugar e eu mergulho na terra. Talvez eu volte e te traga um convite num botão, ou numa borboleta laranja e amarela. Talvez eu descubra que o centro é só mais uma camada, e que é a borda da camada de dentro.

Um comentário:

D. Schuberstein disse...

Nossa, acho que simplesmente adorei. Muito bom. Quebrando bordas, indo além do além do além.
Adorei, mesmo!
Beijos (e mais um pouco).